Ao longe, no dorso dos desertos onde vagam as idéias errantes
Está o sonho do ser, do homem, do delírio, da idéia
Ao longe, onde a retina não enxerga, onde a voz não lateja
Vibra um círio de vida, uma chama eterna de utopia.
Ao longe, nos sóis sangrentos dos fins de tarde
Estão meus sonhos fitando-me nos horizontes
A minha espera, a ver meus passos em sua direção
Ao ver os ventos sobre as folhas levitando
O orvalho se fazendo em prisma
Minhas retinas fitando-os desde longos anos
Meu passo largo, meus dedos magros
Meu copo cansado e permanente
Uma marcha solitária de passos
Que jamais desistem...
Ao longe, mesmo que incerto
Se que está tão presente,
Quanto às idéias que em minha mente existem
sábado, 12 de dezembro de 2009
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Cor nas palavras.
No ocre que toma o verde da folhaO sal da lágrima que doura o grão de areia
O verde brilhante do beija-flor que a beija
Bem no cume do rosa,
Rota na cor de chumbo do asfalto
Que alto, outro chumbo do céu nublado
Me atira uma chuva torrencial
Fonte de prismas do tiro
Quase solar que vaza a gota d’água
Arco íris em pleno céu de março
Fuma o homem o maço do cigarro
Que negro deixa teu pulmão
Puro charme do trago do lábio carnudo
Da boca de batom carmim da moça
Que roçam em mim os olhos verdes claros
É claro que este olhar não é de festim.
Rubras minhas faces que da romã
Furtou a cor.
Imagem: Denise Cardoso
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terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Solo Incerto
Desconhecia o medo dos amores incertosHoje conheço o medo das percas
E os arranhões das saudades que marcaram minha face
Os medos ainda constrangem meus olhares
Que já não é uma lança que apunhalava
Teu coração
É por precaução, que hoje quero do amor
Só o amor sem aventuras, quero o solo
O passo certo dentro do teu coração.
Imagem: Victor Melo
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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Pranto Calmo
Chora linda,Chora calma e leve,
Como a libélula que levita sobre
As águas calmas do lago.
Porque todo mundo tem que ter
Este ombro amigo-eterno para
Aparar os prantos do mundo inteiro
Que se fazem em corredeiras
Abaixo das máscaras felizes
Infelizes somos todos nós
Nesse ar pós-moderno, que nos sufoca
Há tanto tempo.
Chora linda,
Chora que a água leve
Do teu pranto, lava este teu olhar
Sofrido e sacrossanto,
Nessa valsa que só dança você e eu.
Foto: Mafalda Reis
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domingo, 29 de novembro de 2009
Feliz no Carnaval
Ainda na busca dos altaresErguidos aos prazeres das noites
Pelos Pierrôs dopados pela pira
Das paixões derrotadas, debruçadas
Sob a luz da lua, sob a valsa dos confetes.
Neste carnaval que é o fermento de trevas,
De paixões mal resolvidas,
De bridas perdidas sem freios,
Dança o mestre- sala, fazendo sala à poesia,
Mas, as lágrimas quedam pelo rosto,
Pisam a face cansada de peito esfolado
De dores que a quarta de cinzas
Num céu de chumbo põe-se a chorar.
Sob as máscaras dopadas, além da música feliz
Abaixo da maquiagem, as lágrimas brotam...
Mancham este rosto fadado, a ser feliz somente na fuga
Da festa fulgás, onde os sambas-canções cantam teus ais...
És aqui que és feliz, nestes raros momentos,
Onde os tormentos teus são dopados pela festa fulgás.
Foto: Daniela Caniçali
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sábado, 28 de novembro de 2009
Vaga Palavra
Risco da palavra, risco, corte, facaPalavra que devora.
Cala a palavra, palavra que sufoca (enforca)
Fala a palavra, fala tanto
Que me afoga.
Afoga a palavra mar?
Segue calada, no verbo que se corta
Segue sangrando esse sujeito que é verbo
Quem tem corta?
Conta palavra!
Corta essas contas e
Banha tua sangria no mar
Palavra vaga,
No mar tem mil e uma vagas,
Vaga palavra, outro contexto
Vaga de que não explica nada
Vão pensamento teu,
Vaga explicava uma vaga enorme
Foi o meu dissertar.
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terça-feira, 24 de novembro de 2009
Surpresas Dolentes
Não, não foste embora nas horas mortasDo fim de tarde
Não foste, não feriste teus passos
Nessa longa e triste estrada
Deixando-me as cinzas do tempo,
Deixando-me no ar tuas lembranças,
Teus olhares, tua presença nos livros
Nos discos, nas réstias de sol,
Nos restos de mim.
Pois não creio no que some de repente,
Não creio no que escorre entre meus dedos
No que some de minhas retinas,
No que escapa fulgás pelo ar...
Sumiste cortando o ar deste sertão
Sumiste cortando meu peito,
Colorindo o chão com o rubro do meu sangue
A chorar...
Foto: Hugo
Fonte: http://br.olhares.com/solidao_foto944574.html
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domingo, 22 de novembro de 2009
Versos Decantados
Eu que nada sei da vidaNada entendo desse caos ao meu redor
Só percebo os versos que pairam aqui perto
E que os colho, entrego-os pela ponta da pena
Assim como quem colhe uma fruta
E oferta ao faminto.
Oferto meus versos, como tegumento
Retirados das câmaras do meu coração.
Estão aí meus versos todos encantados,
O supra-sumo do meu ser
Em formas de versos decantados,
Destilados e suprimidos sob a forma deste pão.
Pintura: English: The musical contest. Oil on canvas. 62 × 74 cm. Wallace Collection, London.
Jean Honoré Fragonarg (1732(1732)–1806(1806)
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quinta-feira, 19 de novembro de 2009
O caminho possível
Caminho, na valsa calmaNo passo eterno dos doentes
Ombro a ombro com os dementes
Beijo a beijo com as mulheres
Perdidas na noite sem dentes,
Sem sonhos, sem sóis, numa eterna madrugada
Caminho ao lado do cego, do surdo, do mudo
Estudo, a voz latejante do tagarela.
Caminho nessa marcha de malsãos
Nessa madrugada eterna de quimeras reinantes
Nessa névoa de fuligens que fustigam
Meus medos, meus calos nos pés
Meus sonhos outrora tão sóbrios,
Agora delirantes
Caminho, embora o açoite,
Embora seja alvo, embora seja teste
Caminho com o cuidado de levar as mãos
Feito conchas levando os sonhos impossíveis
Embora só seja possível este corpo magro
Cheio de pestes.
Foto: Filomena
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sábado, 14 de novembro de 2009
No repouso das horas noturnas.
No repouso das horas noturnasNo gemer do tempo silente
Estão as páginas amarelas de sempre
Desafiando-o sob a luz das tochas rubras
Estão as linhas pousadas nas pautas
Esperando a vigília de teu olhar insistente
Está a batalha do cansaço da vida diária
E a outra batalha noturna com os livros silentes
Está a mente do intelecto vazia
Preenchida gradativamente
Como o grão da ampulheta que cai
Formando o monte insistentemente
Está o tempo como desafio
Está você em luta consigo, permanentemente.
Imagem:Rembrandt. Parable of the Rich Man. 1627. Oil on panel. Gemäldegalerie, Berlin, Germany.
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